Uma Espada de 2 Gumes

Adoro a tecnologia. É incrível o que ela possibilita a nós, músicos, fazermos hoje.

Posso gravar uma linha de baixo aqui em casa e mandá-la para o Japão. Um dia estava gravando em um estúdio, onde o produtor estava conosco na sala, o arranjador estava no Rio de Janeiro, e mandava as partituras pela Internet, abertas no notebook e impressas dentro da técnica. Ou a rapidez de edição que temos hoje, onde o técnico grava somente o que erramos, ajusta os “crossfades” depois, e tchau.

Estava conversando com um amigo guitarrista, um músico de estúdio das antigas. E ele me dizia que “no tempo dele” a banda gravava junta, muitas vezes com orquestra também, por causa do limitadíssimo número de canais disponíveis. Ou seja, um erro significava parar a gravação, e começar tudo de novo. O músico, segundo palavras dele, tinha até que saber errar, para não comprometer totalmente a gravação.

Bom, hoje temos todas as pistas que o computador aguentar rodar ao mesmo tempo. Plugins sensacionais, amps virtuais, efeitos incríveis, afinador de voz, ou de fretless, dependendo do baixista. Mas tenho percebido algo não tão legal vindo junto com toda essa tecnologia: músicos que, acostumados com a tecnologia, têm se tornado preguiçosos na execução de seus instrumentos.

Parece bobagem, mas tenho cansado de ouvir frases do tipo: “arruma essa nota errada para mim, tem a mesma lá na frente”, “então, depois passa pela afinação e fica perfeito”, “a caixa da bateria está soando muito inconstante, cada nota com uma pegada diferente, mas depois o técnico passa um ‘sound replacer’ e tudo fica maravilhoso”.

Aí, aquele músico que tocou como um “porcão” irá soar politicamente correto, e na próxima gravação provavelmente sua execução será a mesma, porque sabe que alguém irá consertar seus erros. E assim irá ficando cada vez mais cego, surdo e mudo. E a tecnologia, que deveria ter apenas um papel de coadjuvante, vira a personagem principal.

Que tal deixar o que já está bom, melhor ainda? Aliar uma boa execução a tecnologia? Manter a cabeça aberta é fundamental, mas sem perder o foco principal. Se todo o resto opta pela mediocridade, faça da excelência o seu diferencial.

Abraço,

Claudio

Comentários

Jorge disse…
Fala Claudião ...excelente matéria , concordo plenamente contigo , tecnologia é muito bom , mas aliada ao profissionalismo.
grande abraço.

Cantão,
Elton Ricardo disse…
Uma vez um cara quase brigou comigo porque eu não quis ficar copiando e colando os takes e pedia para fazer novamente... Lamentavel... rsrsrs
DMNE disse…
Claudio, já participei dos dois lados desse disco.
(coisa antiga essa de lado, hein?!)

Como instumentista oncordo com o que falou, precisamos caprichar e estudar muito.
Mas, e o outro lado? O cara da técnica precisa mostrar que também é necessário e quer ser mais indispensável que o músiclo!

Para mim uma gravação bem feita quase que elimina a necessidade do técnico. Se gravar direito mais da metade do trabalho do técnico não é necessário. O problema que alguns técnicos também gravam como porcos e depois tem uma grande trabalho para corrigir e melhorar a porcaria que fizeram... mas essa parte o músico não costuma ver.

Abraço!

Marcio Domene

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